21 March, 2012

Música de Pequeno-Almoço

Na verdade são duas. Uma é estrangeira. A outra não. Cada uma apresenta a sua versão possível de início do dia.

O Vocalista

Albrecht  Dürer tinha tanto de talento como de vaidade. Era brilhante na pintura, escreveu tratados de matemática, tinha preocupações filosóficas. Sentia-se com certeza orgulhoso do seu sucesso precoce e tinha necessidade de o mostrar ao mundo. Como não tinha outdoors, programas de televisão e jornais à disposição, usou outro meio eficaz de promoção: o auto-retrato. Foi dos primeiros pintores europeus a fazê-lo e, provavelmente, o mais profícuo neste género. Calcula-se que terá pintado doze auto-retratos. Neles aparece ricamente vestido, exibindo através da sua roupa o seu sucesso e estatuto - os artistas começavam então a ganhar o prestígio que gozariam nos séculos seguintes. Neste auto-retrato, que é também o último, representa-se como Jesus Cristo, sublinhando o carácter divino do seu talento. Tinha apenas 28 anos. Se  Dürer vivesse hoje seria o mais fascinante vocalista de uma banda rock: egocêntrico e genial.

20 March, 2012

Tipografia

(mais aqui)

Gaveta #1

A estrela*
Eu descia a calçada toda iluminada. Iluminada eu, não a rua. Eu cintilante como uma estrela, a maquilhagem fazendo-me afogueada e os collants cheios de brilho. Descia e levava o meu coração na mão, suspenso, porque ele tinha sofrido uma paragem cardíaca. Meu coração imóvel deixando um rasto de sangue na rua que eu não podia apagar. As pessoas todas viam o coração desmaiado e o sangue e percebiam que eu estava apaixonada. Por isso o meu coração não batia. Ele jazia exangue e imóvel fora de mim. Não era mais meu, saltara do peito e se acomodava no exterior do meu corpo. Eu descia a calçada toda iluminada e ao fundo avistei o homem a quem eu devia entregar o meu coração, para que continuasse a viver. No escuro da noite que a minha presença não aclarava, eu vi que ele se encolhia. Lá ao longe, hirto na praça, ele fazia-se pequeno. Porquê? perguntava eu, assustada. E o espanto vinha do facto de já saber a resposta. Eu, tão alta com os meus sapatos de tacão, cintilava como um astro menor que tem ambições de grandeza. Ele era um vulto escuro e pesaroso, um asteróide perdido, fugindo da sua rota. Não vinha para arrecadar o meu coração. Ele chegara, bem-educado, para dizer que afinal não podia recebê-lo. 
(texto de ficção não publicável, que estava na minha gaveta)


Insectos

Cá em casa, os insectos são muito populares. (Ilustrações daqui)

19 March, 2012

O pai moderno

De entre as grandes invenções do século XX, uma das mais fascinantes é a do pai moderno. O pai moderno não nasceu exactamente de um desejo masculino de partilha das tarefas domésticas. É antes uma resposta a uma nova conjectura económica que determinou a necessidade das mulheres ingressarem no mercado de trabalho. Assim, inventou-se a creche e, simultaneamente, o pai moderno. Surgiram então as primeiras crianças educadas por um casal o que é, ao contrário do que se diz, uma novidade com apenas algumas décadas. Ao invés de criar uma identidade própria, o pai moderno assimilou em grande parte as características inerentes ao papel da mãe - que é também uma brilhante invenção, mas bastante anterior. Como ela, o pai moderno é afectivo, compreensivo, presente, sabe cozinhar e muda fraldas. Mas, porque esta é ainda uma experiência muito recente, o pai moderno junta a estas características um aspecto lúdico mais marcado, que o distingue do lado chato que é apanágio das mães. Hoje o dia é deles. Por isso, parabéns pais modernos.
(Foto: Em 1938, Carol Lombard ensina James Stewart a ser um pai moderno no filme "Made For Each Other")


Não Sei Cozinhar - Episódio 06

Não Sei Cozinhar é uma rubrica low-fi (e muito divertida de fazer) que estreia às segundas-feiras aqui no Menina Rapaz e onde eu desafio os meus amigos a revelarem as suas habilidade culinárias. E isto é que tem sido aprender coisas.
A convidada de hoje é a Inês Nogueira, que eu não conhecia pessoalmente, só através do seu lindo blog Caderno Branco. A primeira parte desta aventura foi a Inês ter aceite o meu convite. A segunda foi ter passado cá em casa para me ensinar a fazer folhado de queijo e vegetais. A receita é simples, rápida e dá para fazer uma dúzia de variações (com salmão, com atum, etc.). E agora sempre que passo no supermercado trago massa folhada para estar prevenida. Cá está o vídeo que documenta a nossa experiência gatronómica. Já sabem, é comida de amigos para amigos. Mesmo para amigos que acabaram de se conhecer.

Ingredientes "Folhado de Queijo e Vegetais"
Massa folhada
2 cenouras
1 alho francês
1 pimento vermelho
Queijo parmesão
Azeite
Sal

17 March, 2012

Bom fim-de-semana

William Faulkner em Hollywood (1940)

Os Sapatos

Os sapatos mais feios, são também os mais bonitos. E a verdade, é que não sei como explicar isto (a não ser talvez com uma música de uma banda chamada The Shoes. Já me sinto melhor).



















16 March, 2012

Natureza

Quem contacta de perto com crianças, tem oportunidade de observar a naturalidade com que se movem entre as fronteiras do "bem" e do "mal" e percebe que há nos meninos saudáveis algo de indomesticado e transgressor. Rousseau teve cinco filhos, contudo não os educou, e daí talvez lhe tenha vindo essa ideia da bondade inata do ser humano, que é corrompida em sociedade. Camille Paglia propôs no século XX o oposto: são precisamente os limites firmes das regras que aprendemos em sociedade que nos impedem de nos regermos pela brutalidade das leis naturais. A sociedade não nos deforma, antes nos civiliza, garantindo nomeadamente a defesa dos fracos face aos mais fortes.
(Ilustração: A natureza vista por outro Rousseau em 1910)

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