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01 April, 2012

Gaveta #3

O Táxi*
Ela andava sempre de táxi e os taxistas a adoravam. Entrava no carro, eles piscavam o olho ao colega do lado, porque ela era menina e tinha ar bem-comportado. Sentava-se, dava ordens. Vire à esquerda, contorne a rotunda, pare aqui, a máquina obedecia-lhe e ela sorria encantada, porque quando era pequena sonhava ser monarca absolutista. Luís XIV ou a Rainha de Copas, cortem-lhe a cabeça, diria ela e com a doçura de um ditador obrigaria todos a serem felizes. Ninguém ama mais o seu povo que um rei iluminado que força o seu país à limpeza e à excelência, pensava ela. Mas nasceu na época da democracia, onde todos falam e fingem que são iguais. Então, abandonou seus sonhos infames de infância, mas não sabia ser popular, porque se achava esclarecida. E Freud não diria nada desse complexo de superioridade, porque ele também, dissecando as perversões da nossa mente, se sabia melhor que os outros. Seus sonhos de criança renasciam no imperativo do táxi e, quando saía, o motorista esperava sempre um pouco para que ela acabasse de puxar a cauda do seu vestido comprido.
* (texto de ficção não publicável, que estava na minha gaveta)

26 March, 2012

Gaveta #2

A Bateria*
Nós estávamos sentados no café mais antigo de Lisboa, onde moram os poetas mortos que tomavam absinto e deixaram suas frases escritas nas mesas. Madeira escura, letras gastas, balcão de mármore e empregados a sério. Naquela noite havia turistas que fumavam e bebiam o café queimado que se tornou uma coisa típica. Eles bebiam essa coisa horrível como os exploradores provam insectos na selva, para depois dizerem que tinham sobrevivido. Então entrou uma menina sueca com uns cabelos impossivelmente loiros e tu, que tocavas bateria muito alto para não me ouvires, olhaste para ela subitamente mudo. Imobilizado durante muitos segundos. Uns seis ou sete, diria agora eu. Foi então que naquele silêncio inesperado, eu ouvi com clareza o barulho agitado dos tambores que batiam também dentro de mim e foi então também que percebi que tens uma fraqueza por loiras. E era por isso que gostavas de mim.
* (texto de ficção não publicável, que estava na minha gaveta)




20 March, 2012

Gaveta #1

A estrela*
Eu descia a calçada toda iluminada. Iluminada eu, não a rua. Eu cintilante como uma estrela, a maquilhagem fazendo-me afogueada e os collants cheios de brilho. Descia e levava o meu coração na mão, suspenso, porque ele tinha sofrido uma paragem cardíaca. Meu coração imóvel deixando um rasto de sangue na rua que eu não podia apagar. As pessoas todas viam o coração desmaiado e o sangue e percebiam que eu estava apaixonada. Por isso o meu coração não batia. Ele jazia exangue e imóvel fora de mim. Não era mais meu, saltara do peito e se acomodava no exterior do meu corpo. Eu descia a calçada toda iluminada e ao fundo avistei o homem a quem eu devia entregar o meu coração, para que continuasse a viver. No escuro da noite que a minha presença não aclarava, eu vi que ele se encolhia. Lá ao longe, hirto na praça, ele fazia-se pequeno. Porquê? perguntava eu, assustada. E o espanto vinha do facto de já saber a resposta. Eu, tão alta com os meus sapatos de tacão, cintilava como um astro menor que tem ambições de grandeza. Ele era um vulto escuro e pesaroso, um asteróide perdido, fugindo da sua rota. Não vinha para arrecadar o meu coração. Ele chegara, bem-educado, para dizer que afinal não podia recebê-lo. 
* (texto de ficção não publicável, que estava na minha gaveta)


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