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19 January, 2012

1984

A música pop permitiu que as mulheres estivessem, pela primeira vez, em pé de igualdade numa expressão artística. Porque, na verdade, nos séculos anteriores os feitos artísticos do sexo feminino ficaram aquém dos do masculino em todas as áreas: pintura, literatura, etc. Contudo, a música pop foi diferente. No ocidente, a mulher dos anos 80 era a working girl (inserir aqui imagem da Melanie Griffith) que trabalhava como os homens, partilhando direitos, responsabilidades e autonomia económica. E a música pop foi lugar de celebração dessa nova independência. Na pop, a mulher encontrou espaço para se expressar e criar um discurso próprio. Nos anos 80, ninguém o fez melhor que Madonna, cuja própria escolha de nome artístico, remetendo para o universo religioso, era um prenúncio do que viria mais tarde a fazer da sua carreira. “Eu acho que a arte deve ser controversa. Que deve fazer as pessoas pensarem. Sobre as coisas em que acreditam e não acreditam (…). É bom bater na cabeça das pessoas com estas coisas e faze-las questionar as suas crenças”, disse numa entrevista em 1989. E, o que seria da carreira de Madonna – e de outras estrelas pop – sem essa simbologia cristã, sem essa narrativa contra o qual se rebelar? Comentem, por favor.
(foto de Madonna com D.J. Jellybean Benitez em Nova Iorque, 1984)

11 January, 2012

Personal Jesus


88% dos americanos acreditam que têm uma relação pessoal com Jesus, que ele os ama individualmente. “Tratam-no como se ele vivesse com eles agora e como se falasse com eles sobre os seus problemas actuais”, diz Harold Bloom em entrevista à revista Harper’s (2011). É, portanto, um personal Jesus, alguém para “ouvir as nossas preces, alguém que se importa, alguém que está lá”. Que se encarrega dos pormenores quotidianos, da nossa vida afectiva, das nossas gripes, dos nossos exames de condução. E Bloom fala também da forma como esta personificação de Jesus serve interesses políticos e económicos, citando exemplos concretos em que os Presidentes americanos que se aconselham com Jesus, recebendo essa “validação divina” para as suas acções. Para Bloom, este Jesus é radicalmente diferente de Yahweh, o Deus hebreu do Antigo Testamento, que faz o que lhe convém, que é difícil e temperamental e, por isso, não se adequa à sociedade contemporânea ocidental.
Em baixo: Depeche Mode e Johnny Cash interpretam Personal Jesus. Escolham a versão que preferem. É pessoal.

30 October, 2011

Post sobre a Grécia #2

The male orientation of classical Athens was inseparable from its genius. Athens became great not despite but because of its misogyny, escreve Camille Paglia em Sexual Personae: Art and Decadence from Nefertiti to Emily Dickinson (1990)

Tau. Esta doeu. E faz pensar.

Strike a pose, responde Madonna.


11 October, 2011

Kim Wilde

A man has free choice to the extent that he is rational, escreveu São Tomás de Aquino. Voltamos à questão do livre arbítrio. O que se passa aqui é que Kim Wilde - fazendo suas as palavras das Supremes - torna-se irracional pelo amor e incapaz de perceber a sua capacidade de tomar decisões. Set me free, why don't you babe? get out my life, why don't you babe?, pede ela.
Que dramatismo. Kim Wilde precisava de ter lido mais São Tomás de Aquino.
(segundo post sobre alguém chamado Wilde hoje. Pura coincidência, garanto.)

02 October, 2011

Determinismo

Teologicamente, dava para fazer uma tese bem interessante sobre a questão do livre-arbítrio, esse mecanismo tão eficaz que advoga a liberdade do comportamento humano e que os cristãos encontraram para justificar o que corre menos bem no mundo. Contra esta corrente, vieram os deterministas, defensores da causalidade e de que tudo esta pré-definido.
No entanto, filósofos como Espinoza não vêem contradição alguma entre determinismo e liberdade. Se por um lado acreditam que o comportamento humano é determinado, por outro explicam a liberdade precisamente como a capacidade de saber que somos determinados e compreender porque agimos como agimos. Assim, a liberdade para Espinoza não é a possibilidade de dizer "não" ao que nos acontece, mas sim a oportunidade de dizer "sim" e perceber porque é que as coisas se passam de dada forma.
Tudo isto a propósito de Papa don't Preach, em que Madonna, pleanamente consciente do seu livre-arbítrio e desafiando a autoridade parental faz a sua escolha. I'm gonna keep my baby, diz ela ao pai.

22 September, 2011

Do amor e do fogo

Mais um post da "série Madonna", desta vez sobre a frequente associação dos conceitos de amor e de fogo. Onde terá tido origem esta analogia tão frequente?
Escreve Luís Vaz de Camões no século XVI:

Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer

Madonna actualiza a mensagem para século XX e confessa:

Don't you know that I'm burning up for your love
You're not convinced that that is enough
I put myself in this position
And I deserve the imposition
But you don't even know I'm alive
And this pounding in my heart just won't die
I'm burning up


(Infelizmente Camões não gravou um vídeo que traduzisse visualmente o seu soneto).

15 September, 2011

Dress You Up

Antes de se converter ao Cristianismo, Aurélio Agostinho, o famoso Santo Agostinho, conheceu uma vida de excesso.
Em 370, iniciou os seus estudos de Retórica em Cartago. "I came to Carthage, where a cauldron of illicit loves leapt and boiled about me. I was not yet in love, but I was in love with love."* Aí arranjou uma companheira com quem viveu durante 13 anos e de quem teve um filho. Mais tarde referiu-se a este período como marcado por "wickedness and the carnal corruptions of my soul". 
E escreveu estas palavras maravilhosas: "I in my great worthlessness had begged You for chastity, saying: "Grant me chastity and continence, but not yet. For I was afraid that You would hear my prayer too soon, and too soon would heal me from disease of which I wanted satisfied rather than extinguished."

De luxúria também falou extensivamente Madonna, nomeadamente nesta canção, toda ela um hino aos sentidos (e aos metrossexuais):

Feel the silky touch of my caresses
They will keep you looking so brand new
Let me cover you with velvet kisses
I'll create a look that's made for you


O vídeo é qualquer coisa de genial.


*(Santo Agostinho escreveu, obviamente, em latim, mas infelizmente não encontrei tradução em português)

11 September, 2011

True Blue

Se falamos de guilty pleasures, vou ter que falar do True Blue da Madonna. Adoro. A música e o vídeo são propositadamente teen, à maneira dos anos 50, que foi quando a adolescência como hoje a percebemos foi inventada. Esse tom adequa-se na perfeição. Porque a paixão é qualquer coisa de eternamente jovem e imberbe. Não há amores velhos.
Voltando ao Antigo Testamento, quando a mulher de Potifar (general egípcio) viu José e perdeu a cabeça por ele, deve ter querido cantar:

I've had other guys
I've looked into their eyes
But I never knew love before
'Til you walked through my door
I've had other lips
I've sailed a thousand ships
But no matter where I go
You're the one for me baby this I know


Infelizmente a história não acabou bem para ela.

10 September, 2011

Revelação

"Potifar deixou tudo na mão de José, de maneira que nada sabia do que estava com ele, a não ser do pão que comia. Ora, José era formoso de porte e de semblante. E aconteceu depois destas coisas que a mulher do seu senhor pôs os olhos em José, e lhe disse: Deita-te comigo."
Genesis 39:6-7

(Episódio do Antigo Testamento onde descobrimos que José devia ser estupidamente giro. Outros textos não-canónicos desenvolvem extensivamente esta ideia e Fílon de Alexandria escreve a propósito: "She (Potiphar's wife) was driven mad by the youth's handsomeness". Aqui Rembrandt - em 1655 - recria o momento em que a mulher de Potifar, frustada por José não ter cedido aos seus avanços, o acusa ao seu marido de a ter tentado seduzir. Uma espécie de Revelação - filme muito mau com Demi Moore e Michael Douglas em que esta o tenta atrair e, ao falhar, o acusa de assédio - dos tempos bíblicos.)

09 September, 2011

Borderline

"- Then love," she said, "may be described generally as the love of the everlasting possession of the good?"
- That is most true."

in Platão, O Banquete

"You cause me so much pain, I think I'm goin' insane
What does it take to make you see?
You just keep on pushin' my love over the borderline."

Madonna, Borderline

07 September, 2011

Like a Virgin

"O que nós havemos de ser todos, já vós o começastes a ser. Possuis já neste mundo a glória da ressurreição; vós passais através do mundo sem as manchas do mundo. Enquanto perseverais castas e virgens, sois iguais aos anjos de Deus", escreveu S. Cipriano em De habitu virginum.
As noções de virgindade e de pureza são das que acho mais interessantes do ponto de vista teológico. No Cristianismo, por exemplo, remetem-nos para ideais platónicos. Madonna, pelos vistos, também se sentia intrigada com esta questão.

Mundo Material

De acordo com Platão, o mundo material (ou seja o mundo dos sentidos) é uma ilusão. O mundo real está para além do mundo material: são as Ideias. Assim, Platão afirma: "Só as Ideias são reais".
Madonna discorda.
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